22.6.07

MENINA DO Ó
Não me venha você, menina do Ó, com suas sandalhas pretas de salto alto, dizer qualquer coisa sobre a bossa ou o samba. Não me venha com essas calças vermelhas de corte justo e muita elegância, dizer sobre tipos ou preferências que possa ter sobre isso ou aquilo. Não venha com sua blusa branca, com detalhes em preto no decote atraente, com as costas igualmente decotadas como na mais feliz obra de um estilista desconhecido, mas que entende das coisas, falar sobre o O Mosquito, de Vinícius de Moraes, ou sobre a Carta ao Tom 74, ou sobre o encontro dos mestres em Gente Humilde. Não venha com seus cabelos castanhos na altura dos ombros, lisos, mas loucos para ondular nas pontas ligeiramente mais claras, no exato contraste com sua pele pálida no limite certo, dizer sobre as artes da pintura, sobre as fotografias do Sebastião, ou sobre a ídeia grega do segmento áureo. Não venha com sua boca cuidadosamente desenhada pelo melhor desenhista, com seu nariz de princesa européia, com seus olhos de luz e poder poético para trinta semanas de pôr-do-sol, nem, se é assim, com a evidente perfeição da combinação dos traços que formam seu rosto, dizer sobre Para Viver um Grande Amor ou o Poema do Dia da Criação.
Venha, entretanto, na hora que bem quiser, com seu nome e telefone, que sobre o grande amor falaremos durante o jantar.

18.6.07

PODE TOCAR
A música é assim mesmo. Tem todo um contexto, um ânimo, um clima. Sabe aquela sensação de equilíbrio, da música em harmonia com o momento? Busque isso. Exatamente isso.
Como um bom Vinícius de Moraes nas altas temperaturas do verão, com os vidros escancarados e o volume para o mundo todo, como quem diz: "Sim, é Vinícius!". Ou o Deep Purple quando tudo é mais enérgico.
Acostuma-te com o fato de que tua vida tem trilha sonora e aprende a contextualizar. É uma das chaves para a vida de sabedoria, desde que a trilha seja sábia, naturalmente.
E ao contrário da grande maioria de situações, você é dono da tua trilha. Não gaste as faixas, use-as bem, que tua vida melhora, sempre e sempre e pra sempre.
Porque a música não tem começo nem fim. É infinita em todas as direções.
Estamos aí. Pode tocar.

13.6.07

CRÔNICA DA VAIDADE
Existe razão para o silêncio. Existe razão para a falta de olhos nos olhos, para os diálogos dispersos e sem importância; para os dedos ocupados que quase acabam em nó; para os olhos ocupados em um só ponto, esquecidos do mundo que os cerca; para as fitas métricas nas gavetas adolescentes; para a matemática exclusiva dos quilogramas.

Existe razão para a ocupação excessiva das tesouras, pentes e escovas de cabelo; para os espelhos retrovisores mal posicionados dentro dos carros; para o alto preço dos pincéis e lápis, que não mais pintam casas ou escrevem poemas ou cartas, mas reformam os rostos das mulheres.

Existe razão para a audiência das novelas e programas de baixaria; para a popularidade de tudo que é light, diet e sugar free; para as prateleiras das farmácias repletas de condicionadores, mas remédios apenas ao fundo e a preços altos.

Pobre diabético! Pobre cardíaco! Ricos cabelos! Ricas sobrancelhas!

Existe razão para a vacuidade das bibliotecas; para a lotação das lojas de alta costura; para o preço do café na esquina da Bela Cintra com a Oscar Freire; para a falta do café nas esquinas de Paraisópolis.

Existe razão para os beijos derramados e pisoteados nos galpões eletrônicos dos “altos bairros” da cidade de São Paulo; para a escassez de beijos bem dados nos cantos escuros das casas de jazz e bossa nova.

Existe razão até para a escassez das próprias casas do bom jazz e da boa bossa nova. Existe razão para o agrupamento juvenil em shoppings espalhados por aí. Existe razão para quase tudo que se vê.

Porém, razão não há para deixar vigorar esse mundo do espelho, do sobrenome, da marca da calça ou do ano do carro.

Razão de verdade há em dizer que pela escada que sobe a vaidade, desce a sabedoria.