17.1.08

NOSSA SENHORA DO Ó DO BOROGODÓ
Uma crítica e uma falta de crítica.
Pensando 23, acho melhor começar dizendo que ainda é um dos meu lugares favoritos. E não é que haja lugar que vá competir com o Ó para saber se algum ocupa o topo da lista. Eu não tenho uma lista para algum lugar liderar. E como não tenho tal lista, desnecessário é pesquisar na noite paulista se há lugar melhor. Não é o caso.
Pelo terceiro ano seguido - na tese do cliente fiel - comemorei meu aniversário lá no Ó. No Ó do Borogodó. Sabe o que houve? Aumentou. Aumentou tudo. O preço do estacionamento; o preço da entrada; o preço da cerveja; a qualidade do repertório; meu prazer em estar lá, bem como o de não estar, por causa do preço.
Lembro bem do texto do Pedro - vide Releitura - sobre o Ó. Foi bem na época em que apresentei aquele lugar a ele. Ao fim do texto que ele elaborou e publicou em seu blog, lembro-me melhor ainda, ele diz que algo no sentido de que "no Ó, dinheiro só serve para pagar a conta".
No momento sinto a obrigação de atualizar essa tese. Não me pergunte a razão.
De qualquer modo, diante do aumento no preço, devo dizer que, no Ó, dinheiro serve para parar o carro se não houver vaga na rua; serve para tomar cerveja; serve para comer uma bela porção de carne-seca com abóbora; serve para ir à falência, acreditem; serve para ter um momento de irritação econômica... Acho que deu pra ter uma idéia.
Pessoalmente, continuo achando que dinheiro não serve pra muita coisa senão estragar a festa, empobrecer a mente e toda aquela coisa relacionada à evolução intelectual do ser humano.
Nó Ó, entretanto, serve para ter o prazer mínimo necessário, principalmente para aqueles que buscam um recanto de boa música, boa cultura (não estendendo tal benefício a todo o público que lá comparece); que buscam Cartola, Chico e todos os outros; Fabiana, Dona Inah, Juliana e assim por diante, com poucas exceções e tal.
Dinheiro, no Ó, no fim das contas e em razão do aumento, pode servir, finalmente, para alguma coisa, como, por exemplo, dar continuidade ao ânimo de continuar. Assim como comprar um bom livro, um bom disco...
E aqui estou eu, pensando 23, para dizer ao Leo que o pedôo pela crise de capitalismo decorrente da inflação acumulada. Pena que meu salário não contemplou a mesma inflação que o Ó.
E aqui estou eu com uma crítica e uma falta de crítica, anulando-se. Só espero que esse texto não anule a si próprio e passe a ser irrelevante, passageiro... Melhor começar a pensar em termos de metalinguagem.

15.1.08

PENSANDO 23
Pensando bem, ou melhor, pensando 23, o que muda? A bem da verdade, muda muita coisa. No auge da verdade, mudou muita coisa. Mas não de um ano para cá. De todos os anos para cá.
Mudei para aquele que se traumatizou com vozes altas em demasia; que decidiu que dinheiro é o que vale menos, quando o bem maior é a evolução da mente e tudo o mais; que descobriu que qualidade de vida não tem nada a ver com o que procuram demonstrar as revistas semanais, algumas em especial, que só pretendem decair, para estarem do modo que estão.
Sabe o que vale? Vale mesmo é perceber-se, na boa e velha concepção do Curinga. Hoje, talvez, seja Dia do Curinga! Feliz Curinga para todos!
Feliz Samba; feliz Jazz; feliz Rock.
Na verdade, o calendário e essas datas que, com ousadia, apresentam-se, são conceitos e nada mais. Tudo o que tenho de êxito são 365 dias de morte evitada. Ainda que tenha visitado a quase-morte algumas vezes por aí, senão várias.
O que quero dizer é que existe algo de muito mais importante em tudo isso: hoje, morte evitada é necessariamente vida quase vivida. E se for necessária a pecipitação da morte para uma vida bem vivida, 2008 estará aí para isso.
Coisas para contar quero tê-las dentro de um ano. Porque pelos últimos anos tenho mais perguntas do qualquer outra coisa para contar. Apenas hoje tenho a mínima noção de futuro, ou, pelo menos, futuro pretendido. E adoraria conhecer o que vai fazer com que eu mude de pretensão, se necessário for.
Fato é, pensando bem, ou melhor, pensando 23, que está na hora de fazer valer alguma coisa. Então, se hoje é dia de algo, é dia de beber e também de ficar sóbrio e dizer que alguma coisa começa agora. Precisamente a objetividade artística e poética de que tenho sido carente pelos últimos anos.
Pensando bem, ou melhor, pensando 23, é tudo o que se foi, tudo o que é e tudo o que virá.
Paulo Gianini: desde 1985.

2.1.08

RELEITURA
Viver é interpretar ironias.

1.1.08

DIA 31, ESTRELAS CADENTES E ESTRELAS ASCENDENTES
Os falsos conceitos e a atualização prática das resoluções.
Ao pensar adequadamente a respeito, a conclusão inescapável é a de que o reveillon (assim como o natal) não passa de uma grande pulhação. O sábio diria que um ano possui 364 reveillons.
Porque o critério, a despeito de simplicidade, pode ser considerado absolutamente patético. Todo o calendário é um erro. Vejamos...
Os meses variam entre aqueles com trinta dias e aqueles com trinta e um dias, exceto um, fevereiro, em que correm vinte e oito dias. Porém, não pára por aí. A cada quatro anos, há a invenção do ano bisexto, que adiciona o vigésimo nono dia a fevereiro, "para não dar errado".
E tem mais, acredite. Há o calendário judeu - já passa do ano cinco mil -, o calendário lunar e assim por diante. Ou seja, calendário é pura palpitologia científica com pretensão de avanço.
É uma histeria, na verdade. Só porque bate meia-noite temos que estourar garrafas, fazer brilhar o céu pela combustão de metais pesados? Será que tudo não passa de uma desculpa esfarrapada para a ingestão desequilibrada de álcool? Será que tudo não passa de um ânimo inexplicável em trocar o calendário da comgás da dispensa? Será, no fim das contas, que tudo não passa do último ato de desespero que revela a vontade de mudar alguma coisa, em si ou nos outros?
Eu sei e é claro que não faz mal a ninguém desejar. Mas, então, atenção aos chineses: "cuidado com o que deseja".
Eu ainda tenho vinte e dois anos e aprendi uma coisa em todas essas viradas de ano que passei. Algo faz com que sempre desejemos coisas em termos genéricos. Paz, alegria, saúde e assim por diante.
Isso tudo é muito justo, mas nos distancia do mínimo de objetividade de que se precisa para satisfazer o que é geralmente chamado de "resolução", "pretensão", "plano", ou seja lá como se possam chamar as pretensões para o ano que chega, por acidente de calendário, mas, ainda assim, chega.
Esse ano novo, que anunciou sem erro 2008, a despeito das críticas que fiz acima, fiz de fato com diferença os mesmos criticados desejos. Porque não os fiz absolutamente.
O que fiz foi compreender aquilo que achava que deveria fazer. Sedimentei, isso sim, discos que tenho que terminar e lançar - Fabulosa Banda do Curinga -, trabalhos que devo terminar - monografia, faculdade -, paixões (paixão, amor e assim por diante) que devo perseguir - Olívia Vettore -, cuidados que devo tomar - meu pai, principalmente, que sofreu uma queda no dia 30.
A diferença, dessa vez, realmente está em isolar as pretensões genéricas e levar à plena luz a mínima objetividade necessária.
Dessa vez não fiquei na virada do ano esperando uma estrela cadente para fazer um pedido ou coisa que o valha. Porque o que temos de fazer no ano que chega não vem de nenhum lugar que não seja nós mesmos.
Logo, reveillon não é estrela cadente, mas sim e fundamentalmente uma estrela nascente em cada um de nós, querendo ascender, que devemos elevar ao pedestal justo de astro, pertencente ao cosmos, ao infinito, ao verdadeiro amor e ânimo de evolução.
Isso sim é Feliz Ano Novo.
PARA QUEM CONSPIRA CONTRA MIM...
Aos meus inimigos não desejo a morte, já que contra qualquer pena capital eu sou. Desejo, somente, que se tornem alcoólatras. Ou seja: a morte em vida.